quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Androginia: mitos, lendas e simbologia

Androginia: mitos, lendas e simbologia

Andrógino, de Leonardo da Vinci
Androginia (favor não confundir com androgenia, que é a formação de um embrião masculino no ventre da mãe) é a combinação de características masculinas e femininas. A ambiguidade de gênero pode ser encontrada na moda, na identidade de gênero, identidade sexual ou estilo de vida sexual.

Etimologia

Androginia é um substantivo que começou a ser usado por volta de 1850, nominalizando o adjetivo "andrógino(a)". O adjetivo data do início do século XVII e é ele próprio derivado do francês antigo (séc. XIV) e do inglês antigo (cerca de 1550) "androgyne". Por fim, os termos são derivados do grego antigo ἀνδρόγυνος, de ἀνήρ, ἀνδρ- (anér, andr-, "homem") e γυνή (gunē, gyné, "mulher") através do latim androgynus.

Na cultura

Androginia entre humanos – física, psicológica e cultural – é atestada desde a mais remota antiguidade e por culturas de todo o planeta. O antigo mito grego de Hermafrodito e Salmácis, duas divindades fundidas num único ser imortal, proveu um quadro de referência usado na cultura ocidental por séculos.

Androginia e homossexualidade são vistos no "Simpósio" de Platão em um mito que Aristófanes conta para a audiência. As pessoas eram criaturas esféricas, com dois corpos ligados pelas costas. Elas tinham três sexos: o povo homem-homem que descendia do Sol, o povo mulher-mulher que descendia da Terra, e o povo homem-mulher que vinha da Lua; este último representava o par andrógino. Esse povo esférico tentou sobrepujar os deuses e falharam. Zeus então decidiu cortá-los ao meio e Apolo reparou os cortes que resultaram disso, deixando o umbigo como lembrete de não desafiarem os deuses novamente. Se eles desafiassem, Zeus os cortaria em dois de novo para que ficassem pulando numa perna só. Platão atesta em seu trabalho que a homossexualidade (masculina ou feminina) não é vergonhosa. Essa é uma das referências escritas mais antigas da androginia. Outras referências antigas incluem a astronomia, onde andrógino era o nome dado a planetas que eram às vezes quentes e às vezes frios.
"Simpósio de Platão", de Anselm Feuerbach (1869)
Filósofos como Fílon de Alexandria, e antigos líderes cristãos como Orígenes e Gregório de Nissa, continuaram a promover a ideia de androginia como o estado original e perfeito da humanidade. Na Europa medieval, o conceito de androginia tinha um importante papel tanto no debate teológico cristão como na teoria alquímica. Teólogos influentes como João de Damasco e João Escoto Erígena continuaram a promover a androginia antes da queda do homem proposta pelos primeiros padres da Igreja, enquanto outros clérigos expunham e debatiam a visão e o tratamento apropriados dos "hermafroditas" contemporâneos.

A compreensão da androginia pelo esoterismo ocidental continuou dentro da Idade Moderna. Uma antologia de 1550 "De Alchemia" ("Sobre a Alquimia") incluía o influente "Rosário dos Filósofos", que descreve o casamento sagrado do princípio masculino (Sol) com o princípio feminino (Lua) produzindo o "Andrógino Divino", uma representação das crenças alquímicas herméticas no dualismo, transformação e perfeição transcendental da união dos opostos.

O simbolismo e o significado da androginia era uma preocupação central do místico alemão Jakob Böhme e do filósofo sueco Emanuel Swedenborg. O conceito filosófico do "Andrógino Universal" (ou "Hermafrodita Universal") – uma perfeita mescla dos sexos que antecede o atual uso distorcido da palavra e/ou era a utopia desta – também tinha um papel central na doutrina Rosa-Cruz e em tradições filosóficas como o Swedenborgianismo e a Teosofia. O arquiteto do século XX Claude Fayette Bragdon expressava o conceito matematicamente como um quadrado mágico, usando-o como bloco de construção em muitos dos seus mais notáveis edifícios.

Símbolos e Iconografia

No mundo antigo e no medieval, androginia e hermafroditas eram representados na arte pelo Caduceu, um bastão de poder transformativo na antiga mitologia greco-romana. Uma versão diz que o Caduceu foi criado por Tirésias e representa sua transformação em mulher pela Deusa Hera como punição por atacar um par de cobras se acasalando. O Caduceu foi depois portado por Hemes/Mercúrio e foi a base para o símbolo astronômico do planeta Mercúrio e o sinal botânico para as plantas hermafroditas. O símbolo é agora usado às vezes pelas pessoas transgêneras.

Símbolos de Mercúrio (esq.)
e da Terra (dir.)
Outro ícone comum da androginia na Idade Média e no início da Idade Moderna era o Rebis, uma figura conjugada masculina e feminina, frequentemente com motivos lunares e solares. Ainda outro símbolo era o que hoje chamamos cruz solar, com a união da cruz (ou sautor) representando o masculino e o círculo representando o feminino. Este sinal é atualmente o símbolo astronômico do planeta Terra.

Rebis

O Rebis (do latim res bina, que significa "matéria dupla") é o produto final do magnum opus ("grande obra") da Alquimia.

Rebis, da Theoria Philosophiae Hermeticae
(1617), por Heinrich Nollius
Após ter passado os estágios de putrefação e de purificação, separando as qualidades opostas, essas qualidades são unidas uma vez mais no que às vezes descreviam como o Divino Hermafrodita, uma reconciliação do espírito e da matéria, um ser de qualidades masculinas e femininas como indicado pelas cabeças de homem e de mulher num único corpo. O Sol e a Lua correspondem às metades masculina e feminina, bem como o Rei Vermelho e a Rainha Branca são similarmente associados.

A imagem do Rebis apareceu no trabalho "Azoth dos Filósofos", de Basil Valentine, em 1613.


Fontes: Androgyny e Rebis (em inglês)


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