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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Hipólito, filho de Teseu: herói assexual

Este post tem uma especial importância para o blog Homotheosis: ele é o primeiro a tratar da questão da assexualidade e como isso se apresenta na mitologia (focando-se aqui apenas no mito de Hipólito) e também na sociedade moderna. Espero que aproveitem.
Joseph-Désiré Court: "A Morte de Hipólito" (1825)
Hipólito
Na mitologia grega, o Príncipe Hipólito (grego Hippolytos, "cavalo solto") era filho de Teseu e da amazona Antíope (em outra versão filho da irmã de Antíope, a rainha amazona Hipólita). Ele era identificado com o deus romano das florestas Vírbio (Virbius).

Fedra acusando Hipólito para Teseu
(autor e ano desconhecidos)
A lenda mais comum a respeito de Hipólito atesta que ele foi morto depois de rejeitar os avanços de Fedra, sua madastra, a segunda esposa de Teseu. Sentindo-se desprezada, Fedra enganou Teseu dizendo que seu filho a tinha estuprado. Teseu, furioso, usou um dos três desejos dados a ele por seu pai Poseidon para amaldiçoar Hipólito. Poseidon enviou um monstro marinho — ou, em outra versão, Dioniso enviou um touro selvagem — para aterrorizar os cavalos de Hipólito, que o derrubaram da carruagem e o arrastaram até a morte.

Suicídio de Fedra
A versão do antigo dramaturgo grego Eurípides mostra a ama de Fedra contando a Hipólito sobre o amor da rainha. Hipólito jurou que ele não revelaria que a ama fora a fonte da informação — mesmo depois de Fedra se matar e falsamente acusá-lo de estuprá-la num bilhete de suicídio, que Teseu leu.

Hipólito sendo arrastado por seus
cavalos aterrorizados por um monstro
Numa variação da lenda, atesta-se que Fedra simplesmente se matou de culpa pela morte de Hipólito e que a Deusa Ártemis posteriormente contou a Teseu a verdade.

O lugar da tragédia algumas vezes é mencionado ter sido em Trezena, na Argólida (Peloponeso, Grécia), onde Teseu nasceu e onde Hipólito vivia e ergueu um templo em honra de Ártemis Liceia ("Ártemis dos Lobos") e onde um culto em torno do túmulo (e posteriormente um templo também) do príncipe se desenvolveu, em que as garotas trezenas tradicionalmente dedicavam uma mecha dos seus cabelos a ele antes do casamento.

Vingança de Afrodite
De acordo com algumas fontes, Hipólito rejeitou o culto a Afrodite que seu pai instituíra em Atenas como forma de manter o povo unido pelos laços do amor em razão de se tornar um devoto de Ártemis (ela própria uma deusa assexual), dedicando-se à casta vida de um caçador. Em retaliação, Afrodite fez Fedra se apaixonar por ele. A rejeição de Fedra por Hipólito levou à sua morte ao cair da sua carruagem.

Alexandre Denis Abel de Pujoi: Asclépio ressuscita
Hipólito a pedido de Ártemis
Como resultado, um culto cresceu em torno de Hipólito, associado ao culto de Afrodite. Seus seguidores acreditavam que Ártemis pediu a Asclépio, deus da medicina, para ressuscitar o rapaz por ele ter feito voto de castidade a ela.

A deusa o levou para o Lácio, na Itália, onde reinou sob o nome de Vírbio (Virbius). Lá, ele teria se casado com uma mulher chamada Arícia, embora isso aparente ter sido um caso de erro mitográfico, já que Arícia era na verdade o nome de um lugar sagrado à Deusa Diana (Ártemis para os romanos) na mesma região do Lácio, acreditando-se ser mais crível que Hipólito se manteve casto mesmo após a sua ressurreição.

FONTE 1 / FONTE 2
Sarcófago com cenas do mito de Fedra e Hipólito (século II da nossa era)

Vamos falar sobre assexualidade

Assexualidade é a falta de atração sexual por qualquer pessoa, ou um baixo ou ausente interesse ou desejo por atividade sexual. Ela pode ser considerada a falta de uma orientação sexual, ou uma das suas variações, ao lado da heterossexualidade, homossexualidade e bissexualidade. Ela também pode ser um termo guarda-chuva usado para categorizar um largo espectro de várias sub-identidades assexuais.

Jean-Baptiste Lemoyne:
"A Morte de Hipólito" (1715)
Assexualidade é distinta da abstenção de atividade sexual e do celibato, que são comportamentais e geralmente motivados por fatores como crenças pessoais ou religiosas. Orientação sexual, diferente de comportamento sexual, crê-se que seja algo "duradouro". Algumas pessoas assexuais realizam atividade sexual apesar da falta de atração sexual ou de desejo por sexo, devido a uma variedade de razões, como o desejo de dar prazer a si próprios e/ou aos seus parceiros, ou o desejo de ter filhos.

A aceitação da assexualidade como orientação sexual e campo de pesquisa científica é ainda relativamente nova, com um crescente corpo de pesquisa de perspectivas sociológica e psicológica começando a se desenvolver. Enquanto alguns pesquisadores asseguram que assexualidade é uma orientação sexual, outros pesquisadores discordam.

Discriminação e proteções legais
Um estudo publicado em 2012 pelo Group Processes & Intergroup Relations reporta que existe mais preconceito, desumanização e discriminação contra assexuais do que em relação às outras minorias sexuais, como gays, lésbicas e bissexuais. Pessoas homo e heterossexuais, segundo o estudo, pensam nos assexuais não só como frios, mas também animalistas (considerando-os mais como animais não-humanos que humanos) e sem restrições. A ativista, autora e blogueira assexual Julie Decker tem observado que assédio e violência sexual, como estupro corretivo, comumente vitimiza a comunidade assexual. Contudo, um estudo diferente encontrou pouca evidência de discriminação séria contra assexuais por conta de sua assexualidade. O sociólogo Mark Carrigan vê um meio termo, sustentando que, enquanto assexuais frequentemente experimentam discriminação, esta não é de natureza fóbica, mas "mais como marginalização porque as pessoas genuinamente não entendem a assexualidade."

Bandeira da comunidade assexual
Assexuais também encaram o preconceito da comunidade LGBT. Ao se assumir como assexual, a ativista Sara Beth Brooks foi informada por muitas pessoas LGBT que os assexuais estão enganados em sua auto-identificação e buscam imerecida atenção dentro do movimento de justiça social.

Em algumas jurisdições, os assexuais têm proteções legais. Enquanto o Brasil baniu desde 1999 qualquer patologização ou tentativa de tratamento de orientação sexual por profissionais de saúde mental pelo código de ética nacional, o estado norte-americano de Nova York tem rotulado assexuais como uma classe protegida. Entretanto, a assexualidade tipicamente não atrai a atenção do público ou maior escrutínio; assim sendo, ela não tem sido assunto de legislação tanto quanto as outras orientações sexuais têm.

Na mídia
A representação assexual na mídia é limitada e raras vezes é abertamente reconhecida ou confirmada por criadores e autores. Assexualidade como identidade sexual, em vez de uma entidade biológica, se tornou mais largamente discutida na mídia no começo do século XXI. Antes, sexualidade em geral não era questionada; era frequentemente presumida, e pouca pesquisa tinha sido conduzida, portanto suscetível à influência social, incluindo a representação na mídia.

FONTE

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