quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Hórus e Set: Inimigos e Amantes



Hórus desafia Set pelo trono do Egito como sucessor de Osíris, que Set assassinou. A contenda entre eles é muitas vezes violenta, mas também é descrita como um julgamento legal ante a Enéada, a assembleia das divindades egípcias, para decidir quem deveria herdar o reinado. O juiz no julgamento pode ser Geb (deus da terra), que, como pai de Osíris e Set, ocupava o trono antes destes, ou podem ser os deuses criadores Rá ou Átum, os originadores da realeza. Outras divindades também assumem papéis importantes: Thoth frequentemente age como um conciliador na disputa ou como assistente do juiz divino, e no antigo texto "As Contendas de Hórus e Set", Ísis (mãe de Hórus) usa seu poder mágico e sua astúcia para ajudar seu filho.

A rivalidade de Hórus (egípcio: Heru) e Set (egípcio: Seth) é retratada em duas formas contrastantes. Ambas as perspectivas aparecem logo nos "Textos das Pirâmides" (os primeiros textos funerários do Egito antigo), a fonte mais antiga do mito. Em algumas passagens destes textos, Hórus é filho de Osíris (egípcio: Wesir) e sobrinho de Set, e o assassinato de Osíris por Set é o principal impulso para o conflito. A outra tradição retrata Hórus e Set como irmãos. Esta incongruência persiste em muitas das fontes subsequentes, onde os dois deuses podem ser chamados de irmãos ou de tio e sobrinho em pontos diferentes no mesmo texto.

Ilustração moderna da luta
entre Hórus e Set
A luta divina envolve muitos episódios. As "Contendas" descrevem os dois deuses apelando a várias outras deidades para arbitrar o litígio e competindo em diferentes tipos de concursos, tais como corridas de barcos ou lutando entre si, sob a forma de hipopótamos, para determinar um vencedor. Nesta versão, Hórus repetidamente derrota Set e é apoiado pela maioria das outra divindades. A disputa se arrasta por oitenta anos, em grande parte porque o juiz, o Deus Criador (Rá ou Átum), favorece Set (já que Set é defensor de Rá, segundo a mitologia). Em textos rituais tardios, o conflito é caracterizado como uma grande batalha envolvendo os seguidores reunidos das  duas divindades. A discórdia no Reino Divino se estende além dos dois combatentes. Em determinado momento, Ísis (egípcio: Aset) tenta arpoar Set enquanto ele está travado em combate com o filho dela, mas ela atinge Hórus em vez disso, quem então corta a cabeça da mãe em um acesso de raiva. Thoth (egípcio Djehuti) substitui a cabeça de Ísis com a de uma vaca; a história dá uma origem mítica para o adereço de chifres de vaca que Ísis comumente usa.

Em um episódio-chave do conflito, Set abusa sexualmente de Hórus. A violação de Set é parcialmente para degradar seu rival, mas envolve também desejo homossexual, em consonância com uma das principais características de Set, sua sexualidade vigorosa e indiscriminada. Na primeira versão deste episódio, em um fragmento de papiro do Reino Médio, o encontro sexual começa quando Set pede para fazer sexo com Hórus, que concorda com a condição de que Set dará a Hórus um pouco da sua força. O encontro coloca Hórus em perigo, porque na tradição egípcia o sêmen é uma substância potente e perigosa, semelhante a veneno. De acordo com alguns textos, o sêmen de Set entra no corpo de Hórus e o deixa doente, mas nas "Contendas" Hórus frustra Set ao colher seu sêmen nas mãos. Ísis revida, colocando o sêmen de Hórus sobre as folhas de alface que Set come. A derrota de Set torna-se visível quando este sêmen aparece na sua testa como um disco de ouro. Ele foi impregnado com a semente do seu rival e como resultado "dá à luz" o disco. Nas "Contendas", Thoth toma o disco e o coloca na sua própria cabeça; nas versões anteriores, é Thoth quem é produzido por este nascimento anômalo (ou seja, Thoth seria filho de Hórus e Set).

O Olho de Hórus,
também chamado Wedjat ou Udjat
Outro episódio importante diz respeito às mutilações que os combatentes infligem um ao outro: Hórus fere ou rouba os testículos de Set e Set danifica ou arranca um dos, ou ocasionalmente os dois, olhos de Hórus. Às vezes o olho é rasgado em pedaços. A mutilação de Set significa uma perda de força e virilidade. A remoção do olho de Hórus é ainda mais importante, pois este Olho de Hórus roubado representa uma grande variedade de conceitos na religião egípcia. Uma das principais funções de Hórus é como uma divindade do céu e, por esta razão, seu olho direito dizia-se ser o Sol e o olho esquerdo a Lua. O roubo ou a destruição do Olho de Hórus, portanto, é igualada com o escurecimento da Lua no decurso do seu ciclo de fases, ou durante os eclipses. Hórus pode retomar seu olho perdido, ou outras divindades, incluindo Thoth, Ísis e Hathor, podem recuperar ou curá-lo para ele. O egiptólogo Herman te Velde argumenta que a tradição sobre os testículos perdidos é uma variação tardia da perda do sêmen de Set para Hórus, e que o disco semelhante à Lua que emerge da cabeça de Set após a impregnação é o Olho de Hórus. Se for assim, os episódios da mutilação e do abuso sexual formariam uma única história, na qual Set investe contra Hórus e perde o sêmen para ele, Hórus revida e impregna Set e Set toma posse do Olho de Hórus, quando ele aparece na cabeça de Set. Como Thoth é uma divindade da Lua, além de suas outras funções, faz sentido, de acordo com te Velde, Thoth emergir na forma do Olho e intervir para mediar entre as divindades rivais.

Em qualquer caso, a restauração do Olho de Hórus à totalidade representa o retorno da Lua ao seu brilho pleno, o retorno da realeza para Hórus, e muitos outros aspectos de maat ("ordem, equilíbrio, harmonia"). Por vezes a restauração do Olho de Hórus é acompanhada da restauração dos testículos de Set, para que os dois deuses se tornem completos perto da conclusão de sua rivalidade.

Resolução
Hórus e Set realizando o ritual da reunião
da duas terras (Baixo e Alto Egito)
Tal como acontece com tantas outras partes do mito, a resolução é complexa e variada. Muitas vezes, Hórus e Set dividem o reino entre eles. Esta divisão pode ser equiparada com qualquer uma das várias dualidades fundamentais que os egípcios viam em seu mundo. Hórus pode receber as terras férteis em torno do Nilo, o núcleo da civilização egípcia, em cujo caso Set toma o deserto estéril ou as terras estrangeiras que estão associadas com ele; ou Hórus pode governar a terra enquanto Set habita no céu; ou cada deus pode assumir uma das duas metades tradicionais do país, o Alto Egito (que compreende o deserto e o curso do Rio Nilo) e o Baixo Egito (que compreende o Delta do Nilo, a região mais fértil), caso em que qualquer um dos deuses pode ser conectado com qualquer região. Geb, como juiz e deus da terra, primeiro reparte o reino entre os reclamantes e depois muda de ideia, concedendo controle exclusivo a Hórus. Nesta união pacífica, Hórus e Set são reconciliados, e a dualidade que eles representam foi resolvida em um todo unificado. Através desta resolução, a ordem é restaurada após o tumultuoso conflito.

Uma visão diferente do final do mito centra-se no triunfo único de Hórus. Nesta versão, Set não se reconciliou com seu rival, mas foi totalmente derrotado, e às vezes ele é exilado do Egito ou mesmo destruído. Sua derrota e humilhação são mais pronunciadas em fontes dos períodos posteriores da história egípcia, quando ele foi cada vez mais igualado com a desordem e o mal, e os egípcios já não o viam como parte integrante da ordem natural.

O Olho de Hórus
Com grande festa entre os deuses, Hórus assume o trono, e o Egito finalmente tem um rei legítimo. A decisão divina de que Set está errado corrige a injustiça criada pelo assassinato de Osíris por ele e conclui o processo da restauração do pai de Hórus após a morte. Às vezes fazem Set transportar o corpo de Osíris até a tumba como parte de sua punição. O novo rei realiza os ritos funerários de seu pai e dá ofertas de alimento para sustentá-lo — muitas vezes incluindo o Olho de Hórus, que, neste caso, representa a vida e a abundância. De acordo com algumas fontes, somente através destes atos pode Osíris ser totalmente animado no pós-vida e tomar seu lugar como rei dos mortos, em paralelo com o papel de seu filho como rei dos vivos. Daí em diante, Osíris está profundamente envolvido com os ciclos naturais de morte e de renovação, tais como o crescimento anual das plantações, que fazem paralelo com sua própria ressurreição.

Variantes
Uma história mais explicativa sobre a relação sexual homossexual entre Hórus e Set encontra-se no Papiro Illahun, remontando também ao Reino Médio, mas neste Set seduz Hórus contra a vontade do sobrinho. Esse papiro contém a história quase completamente preservada do mito de Osíris e a lendária luta pelo trono do Egito entre Hórus e Set. O capítulo em questão relata que Set estava indescritivelmente enciumado de seu jovem sobrinho Hórus, porque Hórus era muito jovem e popular, e era muito mimado pelos outros deuses. Set, ao contrário de Hórus, tinha muito poucos companheiros e ele era comparativamente impopular por causa de seu comportamento colérico e vingativo. Como resultado, Set tentou afugentar ou até mesmo matar Hórus, custasse o que fosse custar. Quando Set constantemente falha, ele planeja humilhar seu rival, tanto que Hórus teria que ser banido do Egito para sempre. Set convida Hórus para uma festa e convence o adolescente a beber mais do que normalmente aguenta. Quando Hórus está bêbado, Set o seduz a dormir durante a noite em uma cama juntos. Quando se deitam, Set agarra Hórus e o estupra. Mas Hórus tinha enganado Set; sua embriaguez foi encenada. Ele colhe o sêmen de Set com as mãos e o esconde. Na manhã seguinte, Hórus corre para sua mãe, Ísis, para contar o que aconteceu. Ísis primeiro fica atônita de raiva e descrença. Então ela decide fazer o mesmo com Set: ela corta fora a mão de Hórus e lubrifica a comida preferida de Set com o próprio sêmen dele (a comida é alface, que os egípcios acreditavam ser afrodisíaco, e o alface egípcio era comprido e reto e soltava uma substância parecida com leite quando friccionado, lembrando um pênis). Totalmente sem consciência disso, Set come o alface e, em seguida, ele vai para o Tribunal Divino para informar sobre Hórus. No começo, os juízes divinos praguejam contra Hórus, mas quando Thoth, o escriba do tribunal, chama o sêmen de Set para fora do corpo de Hórus, em vez disso o sêmen sai do corpo de Set. Set cora em constrangimento e se choca e, em seguida, foge. Hórus é absolvido.

Ilustração moderna
de Set e Hórus
O famoso estupro de Hórus por seu ciumento tio é também objeto de discussões apaixonadas. Enquanto a maioria dos estudiosos concordam que o papiro descreve claramente o estupro, deve permanecer aberto se ele na verdade descreve uma ação homossexualmente conduzida. O plano de fundo da disputa são os motivos de Set: ele não ama Hórus; ao contrário, ele odeia seu sobrinho e o estupro foi claramente executado para humilhar Hórus. O único terreno comum entre a homossexualidade e o estupro é que o ato foi de natureza homossexual. Mas alguns estudiosos não têm tanta certeza e salientam que acreditava-se frequentemente que Set tinha interesses sexuais questionáveis. Por exemplo, Set uma vez tentou seduzir a própria irmã Ísis (embora Osíris, esposo de Ísis, também seja irmão dela). Em outra história, Set faz insinuações claras a Hórus.

Eis ainda uma versão variante do mesmo papiro:
"Set disse a Hórus: 'Venha, vamos passar uma hora agradável na minha casa.' Hórus respondeu, 'Com prazer, com prazer.' Quando era noite uma cama foi posta por eles e eles se deitaram. Durante a noite Set endureceu seu pênis e o colocou entre os quartos de Hórus. Hórus colocou as mãos entre seus quartos e colheu o esperma de Set. Então Hórus foi para sua mãe, Ísis [e disse]: 'Ajude-me....! Venha, veja o que Set fez a mim.' E ele abriu a mão e deixou que ela visse o sêmen de Set. Com um grito ela pegou sua arma cortou a mão e a jogou na água e conjurou para ele uma mão nova para compensar isso."

Então Ísis ajudou Hórus a ejacular e esfregou seu esperma sobre um pouco de alface, que era o vegetal favorito de Set e que ela então deu-lhe de comer. Mais tarde, quando Set vangloriou-se para a Enéada (os nove deuses julgando o conflito) que ele tinha feito o "trabalho de um homem [guerreiro]" sobre Hórus, os deuses "gritaram em voz alta e arrotaram e cuspiram no rosto de Hórus."

Acredita-se que os egípcios encaravam o sêmen como veneno quando levado para o corpo de forma tida como errada – ainda que Set não morresse aqui quando ingeriu o sêmen de Hórus. Ainda assim, os deuses aparentemente sentiram que Hórus ser usado sexualmente como uma mulher era tão incompatível com a realeza que eles irromperam com desprezo. O ato de Set geralmente é interpretado como de dominação e de agressão, ainda que a história seja mais complexa, porque aqui: (1) dois homens, comparativamente da mesma idade (adultos) e do mesmo status (deuses), deitam-se para o ato sexual; (2) os dois rivais são capazes de penetrar um ao outro, de alguma forma, e, portanto, podem ser encarados como iguais; (3) Hórus consente voluntariamente em ter relações sexuais com Set (embora uma relação sexual não anal), quem fisicamente o deseja ("doce para seu coração") e descaradamente torna seu pedido conhecido.

Uma versão anterior, mas mais curta, descreve o que aconteceu um pouco diferente:
"A pessoa divina de Set disse à pessoa divina de Hórus: 'Como são lindas suas nádegas, cheias de vida! […] Estique suas pernas...' E a pessoa de Hórus disse: 'Cuidado; Devo dizer [isto]!'" Então ele correu e contou à mãe Ísis que Set desejava sodomizá-lo. "E ela disse-lhe: 'Cuidado! Não o aborde sobre isso! Quando ele mencionar isso para você outra vez, então você deve dizer a ele: "Isso é muito doloroso para mim, pois você é mais pesado do que eu. Minha força [Meu traseiro] não aguenta sua força [sua ereção]..."' Então quando ele te der a força [a ereção] dele, coloque seus dedos entre as nádegas. … Então, ele vai desfrutar muito. [Guarde] essa semente que surgir... sem deixar que o Sol a veja..."

Mais tarde, Ísis jogou o sêmen de Set em um córrego nas proximidades, em seguida espalhou um pouco do sêmen de Hórus na alface que deu a Set para comer. Depois, quando Set vangloriou-se aos deuses que ele tinha tomado sexualmente Hórus, o jovem negou. Para resolver o argumento, os deuses chamaram a semente de ambos. A semente de Set respondeu da água em que Ísis a tinha descartado, enquanto a semente de Hórus surgiu da testa de Set sob a forma de um disco de ouro, que foi tomado pelo deus da Lua Thoth para torná-lo seu símbolo.

Um óstraco do período do governo de Ramsés
retratando dois homens fazendo sexo
Esta história da família de Osíris, que era considerado o primeiro rei humano do Egito, sugere que desde períodos antigos um homem (deus ou humano) tomar o papel de uma mulher, ou ser forçado a isso, e ser penetrado analmente era encarado como humilhante e vergonhoso. Contudo, ao mesmo tempo, o desejo homossexual era conhecido e falado abertamente; e alguns homens se envolviam em atos homossexuais na cama, à parte do ato degradante.

Hórus ser penetrado era uma perspectiva alarmante; no entanto, ao mesmo tempo seu sêmen em Set trouxe benefício para o deus da Lua. Assim, os sinais são bastante misturados. Na verdade Set só caiu em desgraça no século VIII AEC, quando sua castração e incineração começaram a ser comemoradas em hinos, enquanto os reis anteriores o adoravam como o deus das tempestades e da violência, incluindo os governantes hicsos no Segundo Período Intermediário (c. 1674-1553 AEC) e os faraós Seti e Ramsés no Novo Império (século XIII AEC). Só muito mais tarde que o valente deus se tornou um demônio vil.

Set e Hórus abençoando o Faraó Ramsés
Fonte 1
Fonte 2
Fonte 3

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